O MUNDO É QUEM PAGA O PATO

Por Pedro Paulo Paulino

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Na segunda vez que visito o rancho do meu jovem casal de amigos Djacir e Hozana, sou recebido à mesa com uma saborosa carne de pato regada a um aperitivo da melhor qualidade. Esses meus dois amigos abstêmios, numa atenção especial, reservam-me na prateleira da cozinha um recipiente do nosso bom néctar, que brindo, com meu copo abastecido, o copo simbólico deles. Da primeira vez que visitei essa graciosa moradia, o tira-gosto foi na base da tilápia, outro cardápio luxuoso, sem menoscabo do pato.


A moradia, situada em um dos bairros tradicionais de Fortaleza, pela sua tranquilidade, parece encarnar o espírito de uma vivenda interiorana, tal é a paz que ali habita. A brisa, mansa e duradoura, vez por outra dá lugar ao vento insultante, que bate com força o portão e transita pelo interior da casa como um intruso, porém sempre bem-vindo. Para completar o quadro de uma habitação quase rural, é possível até ouvirem-se por lá, vindos do quintal, os ecos de um bem-ti-vi ou mesmo de uma rolinha fogo-pagou.


Sentados à mesa os três, conversamos alegremente e recordamos instantes da vinda do casal ao meu rancho catingueiro, que o Djacir batizou, e sacramentei, de Rancho Verde. A primeira vez que recebi, na minha vivenda, a visita deste meu amigo foi também pelo mês de fevereiro, quando o verde era a cor predominante da paisagem, agora já quase encardia por conta da estiagem. Desde então, somente ratificamos uma amizade preexistente em nosso espírito, haja vista a facilidade com que identificamos um no outro o gosto pela boa música, o bom papo, a natureza e o sertão e, acima de tudo, a leitura e a escrita. Descobri no meu amigo uma vocação patente para escrever o que lhe dita a alma, por sinal uma grande alma cheia de vivência. E não foi preciso pular uma fogueira para nos tornarmos compadres, apadrinhados por esta amizade que nivelou nossos anos de vida, sem que hoje possamos distinguir quem é de nós o mais velho ou o mais moço, numa prova de que a idade é nula perante a grandeza da alma.


E é assim que hoje, distintamente nos tratamos: de “cumpade” para “cumpade”. Nesse clima amistoso, é que também fui apresentado à Hozana, com toda a sua bonomia e sorriso que só uma consciência tranquila e um coração de mãe podem revelar. Aliás, não custa nada dizer que meu Cumpade Djacir e a Hozana parecem uma só encarnação, pois trocando o coração de um pelo do outro, circulará em ambos a mesma paz de espírito e o mesmo sentimento de bondade e juventude. Eu seria até capaz de afirmar que desconheço um casal de jovens que em seu dia a dia reúna, em favor de si mesmos, os elementos fundamentais para a sustentação de um relacionamento em que o amor fala mais alto. Pois Djacir e Hozana são prova cabal do que acabo de afirmar. Psicologicamente, estão ambos tão preparados para a vida a dois, que a prova devia ser tomada como exemplo. Amadurecidos no tempo, neles veem-se constantemente os traços de uma união a bem dizer fraterna: no bom-humor constante, na galhardia, nas brincadeiras, nos insultos inteligentes e recíprocos – este meu casal de amigos parece sempre um casal de passarinhos festivos numa tarde descompromissada e preguiçosa.


Amizade produz amizade. Desta forma, tenho amigos que me foram acrescentados pelo Cumpade Djacir e vice-versa. Com o milagre da interne, essas amizades vão a cada dia se multiplicando reciprocamente, para o bem comum de todos nós que cultivamos o hábito salutar de recorrer às quatro operações na aritmética da vida: somar a paz, dividir o bem, multiplicar a sabedoria e diminuir qualquer vestígio de vaidade. Meu Estimado Cumpade Djacir, minha Estimada Amiga Hozana, fala-se muito no fim do mundo. Isto é um assunto que não me preocupa, confesso. Mas, se tal vai acontecer de vera, eu gostaria de estar juntamente com vocês dois no momento do Armagedon, para, num largo abraço, darmos uma gostosa risada do mundo, que acabaria, desta forma, pagando o pato que comemos no início desta crônica.




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