A CULTURA DA VAIA

 Por Pedro Paulo Paulino



A vaia é um dos mais antigos apelos de protesto. Supõe-se que surgiu na Grécia há não sei quantos séculos. De lá, espalhou-se por todo o mundo e ainda hoje é, entende-se, uma forma de desaprovação coletiva bastante usada. A vaia parte sempre de um anônimo infiltrado no meio do público ou de um conluio. Pode ser um protesto procedente, como pode ser também uma manifestação à toa, grosseira e debochada. Um desabafo ou uma descompostura.


No primeiro caso, o público exprime um sentimento lídimo com uma reprimenda; no segundo caso, a vaia pode restringir-se meramente a um insulto. Em ambas as situações, os apupos causam vexame à sua vítima e, de sobra, até mesmo a terceiros.


As vaias não distinguem seu alvo. Pode ser uma celebridade do campo das artes, da música, dos esportes, das religiões e, com mais frequência, da política. Não têm ocasião nem local definidos para acontecer, daí ser a vaia uma manifestação espontânea e democrática.


No Ceará, a vaia tem um sotaque próprio, em que a irreverência fala mais alto. Aqui, inclusive, a vaia pode ser também interpretada como manifestação de entusiasmo. Não é à toa que em Fortaleza uma vaia tornou-se histórica, ganhou páginas de livros, virou peça de teatro e ainda hoje é tema de cronistas e pesquisadores do nosso folclore. O personagem dessa vaia antológica não foi nenhuma celebridade terrena. Foi – imaginem – o Sol! O fato aconteceu em 30 de janeiro de 1942, há exatos 82 anos. Na manhã desse dia, um grupo de pessoas reunidas na Praça do Ferreira, observando o céu nublado, aguardava ansiosamente o início de uma chuva, em pleno ano de seca. De repente, o Sol surge dentre as nuvens. Para quê?! O astro-rei levou então uma tremenda vaia tipicamente cearense: “Iêêêêeeeeeeeêêêêii!”


Também em Canindé, cidade do sertão cearense, a vaia já teve sua identidade própria. Conta-se que, décadas atrás, era moda na cidade o “trá”, uma interjeição de troça usada pela boa molecagem da época. O “trá” era orquestrado e pronunciado de forma uníssona por um grupo de amigos, em censura a uma pessoa do seu desagrado ou a um gesto antipático; a uma música ruim, a uma dondoca esnobe ou a um janota. E a muitas outras coisas. Há quem diga até que Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, levou imerecidamente um “trá”, quando em visita a essa cidade.


Vaias a personagens da vida pública, naturalmente, sempre têm seu significado, não há dúvida. O tribunal da vaia é anônimo e, em geral, numeroso, algumas vezes envolvendo dezenas, centenas e até milhares de pessoas, como ocorre nas arenas esportivas. Marcante e inapagável, a vaia entra para a biografia da vítima e fica na memória de todos.


Na era moderna da comunicação eletrônica, as vaias ganharam, indiscutivelmente, uma dimensão sem limite, repercutindo nas chamadas redes sociais em tudo quanto é canto do mundo. De tal forma que, agora mais do que nunca, a vaia tornou-se um instrumento altamente temido. Principalmente quando a vaia é uma vaia cearense: “Iêêêêeeeeeeeêêêêii!

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