PUXANDO O SACO E AS BARBAS DO PAPAI NOEL

 Por Pedro Paulo Paulino


Particularmente, não quero me alistar no coro daqueles que deploram, debocham, execram e defenestram o Papai Noel, antes mesmo que ele se aproxime da janela. Assim me comporto em atenção, especialmente, a um respeitável público: as crianças. Pois entendo que, se os adultos têm, cultivam e adoram seus mitos ridículos, o ano inteiro, é direito também das crianças, uma vez por ano e na fase mais passageira da existência, acreditarem em alguém que na noite de Natal venha-lhes deixar um presente, por simples que seja.

O problema é que o Bom Velhinho atende a um número relativamente pequeno de pirralhos – e é exatamente daí que surge a polêmica e a ojeriza dos adultos. Todavia, quero crer que, em relação ao Papai Noel, na nossa condição de adulto, aceitá-lo ou condená-lo dá na mesma manifestação acerba de hipocrisia. Neste caso, esforço-me por me manter num ponto neutro.

É mais do que verdade que o Papai Noel, na grande maioria dos casos, tornou-se um monstrengo filho do capitalismo e um emblema descarado do consumismo onde quer que ele apareça (isto para repetir um discurso batido). Também não é menos verdade que, se supondo a erradicação do Papai Noel, as festas natalinas perderiam um de seus personagens mais contagiantes. E é este o ponto nevrálgico.

Pois com certeza alguém já levantou o indicador, questionando: “e onde fica o aniversariante e dono da festa?” Sem entrar no mérito da questão, eu diria que ele está também e logicamente contido no Natal, e com mais propriedade ainda no coração das crianças que creem no Papai Noel, pois segundo se sabe do próprio Cristo, “quem não tiver um coração de criança não tem o seu reino”.

Meu argumento pode supor que, na minha infância, eu recebia todo ano a visita de Papai Noel, que me trazia o presente tão sonhado. Nada disso. Do contrário, ele jamais me visitou. Até porque, o papai Noel nunca vai à roça, e eu fui menino da roça. Aqui, sempre só se teve notícia dele por ouvir dizer. De tal modo, que eu não teria nem razão em reclamar. Papai Noel é uma entidade estritamente urbana, que não costuma frequentar as moradias da zona rural. Problema dele.

Porém, como pareço estar puxando o saco do Papai Noel, também lhe puxo as barbas brancas e compridas. Puxo-lhe as barbas e o admoesto a visitar, mesmo que não leve presentes, as crianças pobres da periferia das cidades, grandes, médias e pequenas. Em todas elas, senhor Papai Noel, há notoriamente uma população imensa de crianças carentes, de tudo: comida, saúde, educação e afeto. Vá também, senhor Papai Noel, aos povoados, vilas e comunidades rurais, onde nunca falta um grande contingente de crianças nessas mesmas condições, necessitando da tua presença. E não te esqueças também, senhor Papai Noel, de visitar os indigentes de qualquer idade, os velhos pobres em especial, homens e mulheres, que depois de todas as agruras deste mundo, voltaram novamente a ser crianças e precisam de uma palavra amiga como presente.

E quanto a mim, senhor Papai Noel, que quando criança jamais recebi a tua visita, já nesta altura do campeonato é que não deves mesmo bater à minha porta, pois em teu matulão é-te humanamente impossível trazer o único presente que eu, ansioso, te pediria: a minha infância de volta, mesmo sem ti, Papai Noel. E fiquemos quites.

Boas Festas!

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