CHEIRO DE CHUVA NO AR

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No meio desta semana que já finda tivemos, de forma passageira, a visita surpresa da chuva. Foram instantes de trégua do tempo quente e seco, dos dias sucessivos de calor intenso, da angústia da própria terra açoitada pelo chicote inclemente do sol. E um amanhecer de ar fresco e úmido contagiou nossa alma e seduziu a própria natureza, com augúrios de um inverno promissor no ano que perto vem.

É fato inquestionável que a chuva traz renovação absoluta em tudo e uma enxurrada de recordações, em especial, no coração do sertanejo que tem o umbigo plantado no seio da terra que o viu nascer. E quando acompanhada da orquestra do trovão regida pela batuta do relâmpago, a chuva transborda de imensa satisfação e total alegria a alma do camponês. Pois não resta dúvida de que chuva nestas bandas é sempre uma garantida de sobrevivência e fartura.

Todavia, a chuva que há pouco refrescou rapidamente a terra e espalhou seu cheiro pelo ar foi apenas um evento climático repentino e deslocado, que acendeu por momentos a chama da esperança de todos nós inquilinos deste sertão imenso. Pois o que há mesmo em perspectiva preocupante é o aceno da repetição de mais uma dura seca em 2024.

É o que afirmam os homens que se ocupam do estudo do clima. Conforme eles, já está arranchado sobre o Oceano Pacífico o fenômeno denominado El Niño, persona non grata que a cada volta representa uma verdadeira ameaça ao clima do planeta inteiro, provocando secas severas em regiões de chuvas escassas e aguaceiros abundantes onde chove com regularidade.

Tais previsões soam de forma estranha no ouvido de nós cearenses, acostumados com a ideia de que ano terminado em quatro é confirmadamente de muita chuva. E basta tocar no assunto, que na mente de cada um de nós vêm à tona os anos de 1964 e 1974, só para citar dois exemplos de invernos históricos em todo o Ceará. Há registros de que, em cada um desses anos, choveu por dois anos bons de inverno. Contavam ainda os mais antigos que, muito antes, em 1924, houve uma espécie de dilúvio sertanejo. Segundo relatos, o mês de fevereiro teve 28 enchentes, uma a cada dia.  Rios inundaram as margens, cidades e povoações foram alagadas e até novos riachos formaram-se nestas redondezas, para que terra desse conta dos aguaceiros que se despejaram das comportas do céu.

Porém, às vésperas de completar um século desse inverno memorável, o que está na iminência de acontecer é uma seca num ano terminado em quatro, contradizendo a tradição e comprovando que o tempo, como tudo neste mundo, também passa por mutações. E assim, todas as nossas experiências acumuladas por gerações acerca do inverno no Ceará estão, de certo modo, perdendo sua validade, perante os caprichos da natureza.

Pedro Paulo Paulino

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