O EXTINTO VENDEDOR DE LIVROS

 


Eu só o vi uma vez, em 2017, durante os festejos religiosos de Canindé. Pequenas montanhas de livros expostas no porta-bagagem aberto do carro. Um outro tanto espalhado na calçada, bem no centro comercial da cidade, em meio aos transeuntes, quase todos indiferentes. Volumes usados, de literatura, história e também livros técnicos, afora revistas e outras publicações. Velhas enciclopédias e coleções.

Enquanto eu passava em revista o estoque e adquiria alguns exemplares, trocamos um dedo de prosa. Identificou-se como sendo Nazareno Silva, 70 anos, 40 de vendedor de livros e 20 de festa do Canindé. Disse-me também ser potiguar de Mossoró. E que durante esse tempo fez amigos e conhecidos em Canindé, onde sempre permanecia do começo ao fim da festa.

No centro da algazarra e da folia do povo, competindo com a acirrada e desleal oferta de produtos bem mais populares, em plena era da internet na palma da mão, com seu acervo andante e deslocado no tempo, Nazareno, em sua persistência heroica, pareceu-me em carne e osso um indefectível Quixote dos nossos dias.

E desde então, ele desapareceu. Talvez já vencido pela idade. Quem sabe levado pela pandemia virulenta. Ou, simplesmente, tenha cansado de sua batalha inglória e abandonado tudo. Ou, o que é mais provável, ele deve ter sido mesmo o último remanescente de um segmento expressamente extinto: o vendedor ambulante de livros.

O certo é que Nazareno Silva desapareceu na poeira dos seus velhos livros encardidos pelo tempo, mas ainda atraentes aos olhos de bibliofílicos irremediáveis. Em suma, os ombros de Nazareno, exaustos, por certo não mais suportaram a cruz de papel que ele, por força da sobrevivência, carregava acima e abaixo, com tanto apego.

Pedro Paulo Paulino

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