TEMPO DE FARINHADA

 

© Pedro Paulo Paulino

O lugar se chama Paudarcal. O nome vem de longe, quando ali reinava em abundância os pés de ipê, também conhecido como pau d’arco. Fica no interior do município de Madalena. Há naquela terra uma tradição arraigada e conservada por família durante mais de quatro décadas. A farinhada no mês de julho provoca o ajuntamento de muita gente que distribui entre si diversas tarefas.

O agricultor Gerardo Muquila, nome de guerra de Gerardo Gomes da Silva, é quem capitaneia, a cada ano que passa, mais uma edição da farinhada em sua propriedade, tradição telúrica que vem de seu pai. A casa de farinha fica na beira da rodagem, a poucos passos da moradia. Debaixo do antigo galpão, somam-se braços de homens e mulheres, nas diversas etapas para produção de farinha e goma.

De moderno, avistam-se apenas o motor elétrico e a máquina que agora substituem a antiga roda de pau das engrenagens que triturava a mandioca. O resto é feio a mão, da raspagem, passando pela lavagem, peneira, prensa, até chegar ao forno de lenha, com mais ou menos quatro metros de diâmetro, onde a massa processada vira farinha. De carona, são fabricados os saborosos beijus e tapiocas de forno.

A faina intensa, da manhã à noite, dura uma semana e transforma-se em festa para os participantes voluntários, num clima animado de confraternização. Muquila tem sessenta e quatro anos dissimulados num corpo leve e num sorriso brando. Olhando cheio de júbilo a dinâmica do trabalho, diz que enquanto viver não deixa de cultivar mandioca e produzir farinha, para consumo próprio e daqueles que fazem o adjutório. Conversando comigo, sentado num cepo de pau e tomando seu café da hora, ele se gaba: Meu fie, até algodão, se plantar, dá com fartura. O bicudo acabou-se. O que não tem fim é um inseto chamado preguiça, que tomou conta do povo.

Enquanto isso, aquela pequena colônia de trabalhadores humildes segue repetindo um ritual por certo herdado de nossos antepassados indígenas. Pois foram os nativos que descobriram a técnica rudimentar do beneficiamento da mandioca. O próprio nome remete à deusa Mani, benfazeja dos povos guaranis.

E compartilhando daquele momento que entre eles se transforma em festa, não há como não ser também contagiado pela atmosfera de contentamento simples e ao mesmo tempo rico de folclore e até mesmo de envaidecimento da gente autêntica. Do cozimento do tubérculo ao produto final, o agrupamento de pessoas reveza-se no trabalho, em meio a conversas e mais conversas, e cantigas, e anedotas, e risos, noite adentro e varando a madrugada sertaneja.

O forneiro é escolhido, via de regra, entre os caboclos mais dispostos para puxar e empurrar o rodo, num vaivém ritmado, sobre a ampla plataforma circular de cimento. Outro auxiliar está de prontidão para alimentar com lenha a boca gulosa do forno. De vez em quando, uma pausa para o gole de cachaça estimulador.

E assim, amanhecem e anoitecem naquela labuta continuada. Quando o grupo se cansa, já outro ajuntamento está a postos para sequenciar os trabalhos. O lanche, de manhã e de tarde, vem direto da fonte: o beiju de forno, quentinho, suculento, inigualável.

Passando alguns momentos entre aquela gente feliz, fazendo o que gosta e sustentando uma tradição quase já extinta por aí afora, é que se tem a dimensão exata do quanto é bom o sertão e seus antigos costumes. Embora contaminado pelos ruídos da vida urbana, enquanto houver farinhada por estas bandas, sobreviverá um pedaço do sertão de tempos idos, quando era tudo natural e puro.

Pedro Paulo Paulino

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