O FIM DO MUNDO NA TURQUIA E NOSSA FRÁGIL PRESENÇA NESTE MUNDO

 

Burak Kara/Getty Image

No começo desta semana o mundo amanheceu chocado com a catástrofe que ceifou milhares de vidas na Turquia e na Síria. A segunda-feira, seis de fevereiro de 2023, entra para história como um daqueles dias fatídicos nas efemérides da humanidade. Cidades inteiras, com seus habitantes, de um minuto para outro foram transformadas em escombros. Um cenário de destruição apocalíptico. Famílias soterradas. Milhares de feridos e desabrigados. Outros milhares desaparecidos. No momento em que escrevo esta crônica, há informação de que na Turquia e na Síria já chegam a vinte mil as mortes causadas pelo terremoto que atingiu violentamente aquela região. O espasmo nas entranhas da terra, naquela madrugada, durou apenas um minuto e meio, mas seus efeitos, na superfície, são devastadores e prolongados.

Catástrofes naturais têm representado sempre grande ameaça à humanidade. Às vezes, elas acontecem relativamente em pouco intervalo de tempo; às vezes, demoram mais tempo para se repetir; mas ali estão, insidiosamente, prestes a acontecer a qualquer momento. Tomemos, por exemplo, um acontecimento com semelhante grau de destruição que o da Turquia e Síria, registrado na segunda metade do século dezoito. No dia primeiro de novembro de 1755, a cidade de Lisboa foi completamente destruída por um terremoto seguido de tsunami. Estima-se que, em poucos instantes, morreram cerca de 90 mil pessoas, dos 300 mil lisbonenses. O sismo de 1755, como ficou conhecido, destruiu palácios, igrejas, conventos, portos, bibliotecas e milhares de habitações.

Recuando mais no tempo, no ano 79 da era cristã, o vulcão Vesúvio, na Itália, também numa madrugada, vomitou milhões de toneladas de lava sobre a cidade de Pompeia, matando todos os seus habitantes, que se calcula somavam em torno de 16 mil almas. Diante dessas sucessivas impetuosidades da natureza, ponho-me sempre a refletir no profundo estado de abandono em que sempre viveu a humanidade, na superfície deste mundo. É bastante evidente que o Universo e a própria Terra, nosso lar, são absolutamente indiferentes a nós humanos. As ameaças contra o homo sapiens vieram sempre de toda a parte e de todos os lados e de vários modos. Tanto vêm das profundezas da terra, quanto do espaço acima de nós. Basta uma ligeira convulsão no ventre deste planeta, para causar uma catástrofe como a da Turquia. Basta um mal-estar no estômago da Terra, para ela vomitar com violência infernal, no caso dos vulcões. Basta aparecer um verme invisível, para provocar uma pandemia catastrófica. Apesar da nossa ingênua tranquilidade e confiança na natureza, estamos o tempo todo na corda bamba, naquela do salve-se quem puder.

Tragédias como essas, entretanto, deixam sempre um lembrete e uma lição. O lembrete é de que a Terra é um organismo vivo, e como tal, ela precisa do seu espaço e nele realizar suas necessidades. Não importa a nossa presença sobre a terra, apesar da importância que supomos ter. A Terra tem a sua própria vida, seus movimentos e seus caprichos. E comprova que houve e haverá muitos fins do mundo.

A lição é a lição da solidariedade. Desde segunda-feira passada, milhares de pessoas se uniram nos trabalhos de emergência e de resgate de vítimas do terremoto. Países de todos os continentes somam forças para ajudar os desabrigados e feridos na Turquia e na Síria. E foi durante os trabalhos de resgate, em meio aos destroços e ao frio severo, que uma cena comoveu mais o mundo. A imagem de um bebê recém-nascido resgatado dos escombros, e ainda com o cordão umbilical ligado ao ventre da mãe morta. E perto de ambos, o pai também morto. Perante tanto desespero e dor e clamor e choro e ranger de dentes daquele povo, homens, mulheres, velhos e crianças, parece-me ouvir, aqui onde escrevo neste momento, os ecos do brado do poeta Castro Alves:

“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito...

Onde estás, Senhor Deus?...”.

 

Pedro Paulo Paulino


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