FIM DE ANO, ALMANAQUES E PROFETAS

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Os almanaques populares já foram uma das principais atrações nas povoações interioranas. Neste período do ano, tinha início a procura por esse tipo de publicação, geralmente impressos em papel ordinário e em pequenas tipografias. Um dos mais tradicionais e de mais longa existência foi o Almanaque O Juízo do Ano, de autoria de Manoel Caboclo e Silva. No formato de folheto de cordel, com 24 ou 32 páginas, era impresso em Juazeiro do Norte e distribuído para diversas cidades do Ceará e até de estados vizinhos, através de folheteiros que os comercializavam em feiras livres. Antes que o homem do tempo dos telejornais invadisse os lares sertanejos, eram os almanaques que traziam previsões do tempo, orientações para os lavradores, fases da lua, além de curiosidades, medicina caseira, mezinhas, receitas de culinária, horóscopo, humor e também um pouco de literatura de cordel. Falava-se até em "cultura de almanaque". Meu pai nunca deixava de comprar esses livretos, que eu lia para ele ouvir. Ainda guardo alguns exemplares, talvez os últimos a serem publicados na década de oitenta. Faz parte do folclore nordestino.

Já a partir de 1983, venho colecionando as edições do Almanaque do Pensamento, que meu pai também comprava. O interesse dele nessa publicação voltava-se para orientações a respeito de agricultura e previsão de chuva. Para minha alegria, sobravam as seções diversificadas sobre literatura, ciência, folclore etc. Ainda hoje, conservando a tradição, compro a cada ano o Almanaque do Pensamento, já ultrapassando as cem edições. Pena que agora se volta muito mais para astrologia do que antes.

As chamadas profecias sempre acompanharam a trajetória humana. A ilusão de quebrar a lei universal de causa e efeito, e assim prever o futuro, está presente em quase todos os povos. Sem jamais ter sido uma ciência, ou mesmo uma arte, a profecia é em si uma prática cercada de crendice e misticismo. Nesse âmbito, o nome mais celebrado entre os profetas é Nostradamus, o famoso vidente francês que viveu na primeira metade do século dezesseis e continua em voga em pleno século vinte e um! Afirma-se que Nostradamus previu, dentre outros acontecimentos, a Revolução Francesa, as guerras mundiais, a bomba atômica e até a descoberta da gravidade. O velho mago alinhavou suas profecias em quadras de versos decassilábicos e ao conjunto delas deu o nome de centúrias. Empregou em suas profecias uma linguagem enigmática cuja maior magia deve estar no talento de seus decifradores.

Frequentemente, não deixam de surgir videntes mais sofisticados e antenados com o mundo moderno. O exemplo mais badalado foi o do profeta paranaense Jucelino Nóbrega da Luz. Ele previu, por exemplo, que uma onda gigantesca destruiria, em novembro de 2013, a cidade de Fortaleza. Felizmente, seu vaticínio foi um espalhafatoso fiasco.

As predições dele, aliás, estão quase todas relacionadas àquilo que mais tem apaixonado os profetas: catástrofes como terremotos, incêndios, enchentes, secas, hecatombes, ciclones, calamidades, desabamentos, colapso na economia de algumas nações, epidemias etc. Fatos esses tão prováveis de acontecer em várias partes do mundo, a qualquer momento, que os prever parece exigir somente uma boa dose de imaginação e de audácia. No caso de Jucelino Nóbrega, sua única e mais acertada previsão, não há dúvida, foi ele ter adivinhado que com o charlatanismo conquistaria a mídia, a fama e o sucesso financeiro, até mesmo através do mercado editorial. A popularidade em torno do tal vidente apenas revelou o lamentável alto índice de credulidade das massas, principalmente pelo incentivo desbragado da mídia à insensatez.

Bem menos pernósticos e muito mais modestos são os profetas populares, quase desaparecidos em nossos dias. Sobrevivem ainda, e até de modo organizado, os chamados “profetas da chuva”. Como o termo não encontrou até hoje um substituto mais realista, “profeta da chuva” designa em particular o sertanejo que, através das “experiências” com a natureza, prevê a seca ou o inverno em diversas partes do Nordeste. Nem mesmo na meteorologia seria válido falar em previsão exata do tempo, haja vista que o que essa ciência faz é um diagnóstico, em determinado período, das condições atmosféricas para determinada área.

Seguindo o exemplo de Nostradamus, a maioria dos profetas populares prefere expor suas premonições em versos, não cifradas como as do famoso vidente, mas traduzidas em palavras francas e rimas comuns. Um exemplo é a profecia do poeta popular Lucas Evangelista, publicada em folheto de cordel intitulado A queda do Planeta – O fim do mundo em dois mil. O apocalipse, na previsão dele, viria por conta do choque de um satélite do planeta Saturno com a Terra. Evidentemente, 22 anos já se passaram e o mundo continua em sua longa marcha.

Ainda sobre almanaque, em Portugal, circula todo ano, desde a década de 30 do século passado, o Almanaque Bertrand, de excelente qualidade gráfica e conteúdo eclético. Recentemente, vem fazendo sucesso no Ceará o Tupynanquim Almanaque, publicado pelo cordelista e desenhista Klévisson Viana, proprietário da Editora Tupynanquim. O Almaque se destaca pelo requinte do visual gráfico e pelo atraente conteúdo literário, com trabalhos assinados por diversos autores. Por isso, Klévisson já trabalha na edição do seu almanaque para 2023. Enquanto isso, os leitores aguardam com expectativa. Pois leitor de almanaque é sempre de uma fidelidade ímpar.

Pedro Paulo Paulino 

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