MORTOS SEM SEPULTURA

 Antecipemos para hoje a crônica que escrevo toda sexta-feira no Portal de Notícias CNE. Neste dia dedicado aos mortos, vêm-me à lembrança aqueles que se foram e não deixaram túmulo. Isto vale tanto para os anônimos quanto para as celebridades. No primeiro grupo, existe uma vasta quantidade de pessoas, incluindo as vítimas de epidemias, de acidentes aéreos de grande proporção e os mortos nas guerras, por exemplo. No grupo das pessoas famosas, pelos menos dois grandes vultos foram enterrados não se sabe mesmo onde.

De Camões, lê-se que: “Entre 1579 e 1581 grassa em Lisboa, mais uma vez, violenta peste. A morte sobrevém em quatro ou cinco dias. No meio do caos reinante, com a acumulação de cadáveres para ser inumados, o corpo de Camões é apenas envolvido numa mortalha e lançado, com os de outras numerosas vítimas da epidemia, na cripta da Igreja de Santa Ana. Um terremoto em 1755 destroi o templo e mistura ainda mais as ossadas que sob ele jazem. Em 1880 todos os despojos que ali se encontram são levados para o Panteão dos Jerônimos, onde ficam sepultados, na esperança de que entre eles estivessem os restos do maior poeta português”. No dia da morte do autor de Os Lusíadas, 10 de junho de 1580, O historiador Diogo do Couto limitou-se a esse necrológio: “Em Portugal morreu este excelente poeta em pura pobreza”.

Wolfgang Amadeus Mozart, morto aos 35 anos, também foi enterrado numa vala comum no Cemitério São Marx em Viena. O túmulo do músico genial é apenas um cenotáfio – um monumento erigido em sua memória, sem conter seus restos mortais. Sua morte, pelo que se sabe, também não foi motivo de comoção coletiva. Seu rival Salieri e apenas mais quatro pessoas acompanharam o cortejo fúnebre de Mozart, mas voltaram da porta do cemitério devido ao mau tempo.

Já Albert Einstein, que conviveu com a imortalidade do seu nome, pediu para seu corpo ser cremado e as cinzas jogadas em lugar ignorado. O gênio da Relatividade temia que seu túmulo virasse lugar de peregrinação.

No Brasil, também, personalidades da história não tiveram a honra de ser enterrados dignamente. Deles, o mais contemporâneo nosso, Ulisses Guimarães, nome importante na luta pela redemocratização nacional, morreu num acidente aéreo e seu corpo perdeu-se no mar. Lampião foi morto, decepado e sua cabeça exposta ao público na calçada duma igreja. Antes dele, Antonio Conselheiro, o quase invencível líder sertanejo, desapareceu nos últimos dias da Guerra de Canudos. Um corpo tido como o dele foi desenterrado dias depois e o crânio examinado pelo professor Nina Rodrigues. O mais recente caso de uma celebridade mundial que morreu e não tem túmulo é o terrorista Osama Bin Laden, que teve o mar como sepultura – pelo menos é o que dizem.

Transitar da vida para a morte sem deixar vestígios do próprio corpo parece ter um charme especial. Por outro lado, o defunto célebre deixa de oferecer a oportunidade de muita gente visitar seu túmulo, sabendo que ali estariam os despojos físicos de um vulto imortal.

Nas grandes cidades do mundo, os cemitérios são verdadeiros pontos turísticos, a exemplo do cemitério Père Lachaise, em Paris, onde estão sepultados, no meio de mais de 70 mil túmulos, os escritores Molière, Balzac, Oscar Wilde, o músico Chopin e o espírita Alan Kardec. Aqui mais perto de nós, o túmulo do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, atrai milhares de pessoas no dia de hoje, numa calorosa romaria ao santo nordestino.

Reprodução

Nas necrópoles desenvolveu-se até um outro tipo de arte, a arte tumular, que transforma o cenário pesaroso dos cemitérios em locais atrativos aos olhos. São monumentos e esculturas em grande estilo ornamentando as lápides e embelezando a cidade dos mortos. Além das artes plásticas, os cemitérios das grandes cidades guardam ainda um outro tipo de cultura, os epitáfios.

Em essência, o epitáfio é a última palavra de quem se foi. Deve ser lacônico como a vida e feito para sempre como a morte. Há dois epitáfios famosos que, no meu ponto de vista, são os mais belos. O primeiro é o do poeta Álvares de Azevedo, em cujo túmulo está escrito: “Foi poeta, sonhou e amou na vida”. O segundo é o do escritor Fernando Sabino, composto por ele mesmo: “Aqui jaz Fernando Sabino. Nasceu homem, morreu menino”. Brás Cubas, personagem de Machado de Assis, faz uma dedicatória em tom de epitáfio: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico, como saudosa lembrança, estas memórias póstumas”. Enfim, quem não escreve seu epitáfio, cala-se mais.

Pedro Paulo Paulino

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