A MULHER QUE VIRAVA MACACO

 

© Divulgação/Reprodução

Chega a Festa de São Francisco de Canindé, e com ela, as recordações. No final dos anos oitenta, por exemplo, uma das atrações mais concorridas nos festejos foi “Telma, a Mulher-Macaco”, uma imitação da famosa “Monga” que na época percorreu quase todo o Brasil.

O público-alvo, em regra, eram a garotada e os rapazotes imberbes. O primeiro segmento comparecia curioso mesmo de ver a tenebrosa metamorfose. Já o segundo segmento mostrava menos interesse na transformação do que na visão da jovem Telma, de biquíni e sutiã.

Perfilando-me no segundo segmento, pelo menos somente uma vez assisti ao espetáculo, em algum ponto na rua Euclides Barroso, a velha rua da Palha. Estudante ainda, compareci ao local a convite de um amigo, fã ardoroso das imagens que viu de Telma nos anúncios pregados em várias paredes da cidade. “Meu amigo, a mulher é linda demais, você precisa ver”, comentava eufórico.

Na sala compacta, desconfortável e mal iluminada, espectadores espremiam-se aguardando de pé a fantástica transformação. Tudo claramente uma ilusão de ótica produzida por um jogo de espelhos. O gorila nada mais era que alguém dentro de uma fantasia já surrada. Atrás da jaula, trancada a cadeados (simulacros), Telma rebolava e acenava, sorriso deslumbrante, corpo escultural, lábios sensuais e rosto emoldurado por charmosos fios loiros.

Mas o astro mesmo da atração era o locutor, verdadeiro ator cuja voz grave e narração exaltada dominavam as emoções e davam total credibilidade ao fenômeno. “Quem pode crer que essa linda mulher, essa deusa, essa beldade, dentro de alguns instantes vai se transformar num gigantesco e terrível gorila?! Porém, não tenham medo. A jaula está protegida por três fortes cadeados. Portanto, senhores, apreciem a beleza deslumbrante de Telma, enquanto ela não se transforma na fera.”

A música de fundo, tema de algum filme de terror, fazia a assistência prender a respiração. O suspense tomava conta. A ânsia e o medo no ar. E, de repente, cabelos hirtos começam a cobrir o belo corpo de Telma. Nariz, boca, orelhas, olhos, mãos, tudo vai tomando a forma grotesca de um gorila corpulento, raivoso e indomável. A plateia recua, assombrada. E o monstro surge por completo, feroz, selvagem, soltando guinchos altos, arreganhando a boca horrenda e mostrando as presas pontiagudas, as garras possantes sacudindo com força a jaula.

Nesse instante, para assombro geral da plateia, um cadeado quebra; depois outro, restando apenas um. O locutor berra, as mãos na cabeça: “Deus do céu! Meu São Francisco! Isto nunca tinha acontecido! Telma, desta vez, se transformou de verdade num terrível goriiiiiiiiiila!”

Num estouro descontrolado, a rapazeada arranca, atropelando-se no estreito portão rumo à rua, dando encontrões nos romeiros que passavam, e provocando o riso estridente dos populares do lado de fora. Eu saio também em disparada. Mas em dado momento, embora contagiado pela agitação coletiva, também não contive a gargalhada quando avistei, lá fora, bem longe do palco da comédia, meu amigo e companheiro de plateia, escondido atrás de uma árvore, trêmulo, ofegante, olhos arregalados, pálido e amargamente decepcionado com Telma, que, a bem da verdade, nunca virou macaco.

Pedro Paulo Paulino

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