SÃO ROQUE FAZ A FESTA EM VILA CAMPOS

© Pedro Paulo Paulino

As festas populares de santo nas povoações rurais do Nordeste são representativas também da cultura e do folclore. Os oragos das capelas e igrejinhas são, claramente, de origem europeia. Exemplo da povoação de Campos, interior de Canindé, onde o padroeiro é São Roque, nascido na cidade francesa de Montpelier, no final do século 13. A imagem primitiva de Roque, trazida por um devoto ainda no surgimento do povoado, originou a festa que se realiza há mais de um século, no mês de agosto.

Em todo esse período de convivência com os nativos, São Roque foi perdendo suas características francesas, para se tornar cidadão de Campos. Acostumou-se aos anos de seca como também aos anos de bom inverno. Tornou-se afeito aos pedidos simples de seus fiéis, à irreverência própria dos habitantes e, especialmente, à quietude do lugar. Em sua graça, muito conterrâneo já recebeu na pia o nome de Roque, muita promessa já foi feita e outras tantas pagas, muita festança boa já reuniu familiares e amigos, como promete este ano, após o silêncio provocado pela pandemia. Há missa para vaqueiros, novenário em noites claras de lua, encontros amistosos, leilão, relembranças e animação de sobra. No encerramento da festa, ocorre missa solene pela manhã, seguida da procissão com o andor do padroeiro pelo centro da Vila.

Quitadas as contas com o santo, é a vez da confraternização dos moradores e visitantes. O leilão tradicional reúne alegremente os sectários de São Roque, ao embalo de sanfona e pandeiro e arremates pitorescos de galinha assada e outras prendas doadas por populares. A festa é a data magna do lugar. Um momento único do ano, de reencontro dos residentes com familiares que moram fora. Instantes de recordações, de histórias várias, de relembranças dos entes queridos e saudosos, atores de um outro tempo. O dia de São Roque, normalmente, transcorre efusivo, abrilhantado pelo sol forte e agitado pelos ventos vibrantes que fazem as árvores baterem palmas e levantar poeira como em louvação.

Ouvem-se estampidos de fogos e o badalar constante do sino da capelinha, morada do santo, singela e garbosa a um só tempo, cujas torres, apontando para o céu azul, parecem dedos erguidos, em sinal positivo de que tudo por ali vai bem.

À noite, há o legendário forró. O arrasta-pé vai ao amanhecer do outro dia. Tradição conservada por gerações. Moços e velhos juntam-se na mesma atmosfera da noitada festiva. Depois de tudo, por dias seguidos, persistem nos campesinos os comentários sobre os bastidores do evento. E a pequena Vila Campos volta à sua adorável imutabilidade cotidiana.


Pedro Paulo Paulino

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