O CORAÇÃO DO IMPERADOR DE VOLTA AO BRASIL

© Marcelo Camargo/Agência Brasil
 © Marcelo Camargo/Agência Brasil

O coração de Pedro de Alcântara, primeiro imperador do Brasil, foi desembarcado na Base Aérea de Brasília, na segunda-feira, 22 de agosto, após sobrevoar o Atlântico a bordo de um avião da Força Aérea Brasileira, vindo da cidade lusitana do Porto. Na Capital Federal, o recipiente com o órgão mergulhado em formol há quase 200 anos foi recebido com pompa e honrarias militares. O objeto permanecerá em solo nacional até oito de setembro, para depois retornar a Portugal, após as celebrações do bicentenário da Independência brasileira. Durante esse período, polícias federal, militar e forças armadas darão segurança ao órgão, exposto no Palácio do Itamaraty.

É a segunda vez que o coração de Pedro I desembarca em solo brasileiro. A primeira vez se deu em 1808, quando o coração do filho do rei João VI ainda batia num peito infantil, então com nove anos de idade. Foi quando a família real, fugindo do exército de Napoleão Bonaparte, abandonou Portugal e esquipou rumo ao Brasil, durante longa e sofrida travessia do Atlântico, em navios à mercê dos ventos. Desta feita, porém, o coração de Pedro I, inerte e embalsamado, faz o mesmo percurso a bordo de moderna aeronave, com todas as despesas não reveladas, mas pagas pelo suor do povo brasileiro. Segundo foi noticiado, aos custos somam-se as diárias dos agentes envolvidos na segurança do coração e os gastos com a delegação portuguesa.

Também não é a primeira vez que os despojos físicos de Pedro I são usados como objeto de comemorações cívicas nacionais. Durante os chamados “anos de chumbo”, por ocasião do sesquicentenário da Independência, a ossada do imperador foi trazida de Portugal para exposição no Museu do Ipiranga, em São Paulo, onde lá ficou. Agora é a vez do coração imperial servir de instrumento nas comemorações dos 200 anos da Independência, suscitando um paralelo da propaganda política da ditadura militar em 1972, com o cenário político de hoje.

Afora esses detalhes, é de se indagar: que significado tem para o povo brasileiro um órgão biológico morto há 187 anos, mesmo que tenha pertencido ao “herói” da Independência dos livros escolares? Que encanto pode haver num órgão secularmente parado, e que quando em vida bateu num peito enfunado de vaidade e prepotência, segundo se sabe da biografia de Pedro I? O governo brasileiro, em um acesso macabro de pseudopatriotismo, pede emprestado a Portugal o coração que palpitou de amores por Domitila de Castro, a Marquesa de Santos, concubina do imperador e protagonista de um escândalo histórico de infidelidade conjugal.

Incomparavelmente interessante foi a volta temporária ao Brasil, para exposição nas comemorações dos 500 anos do Descobrimento, da Carta de Pero Vaz de Caminha, autêntica certidão de batismo do nosso país. Já o coração do imperador, engolfado num vaso de formol, com todos os custos implicados no transporte de vinda e volta a Portugal, e demais ônus bancados pelo nosso povo, só pode mesmo é acelerar o baticum de milhões de brasileiros, não movidos por emoção cívica, mas por incontáveis problemas que vão do desemprego à fome, da violência à falta de assistência na saúde pública, das tentativas de golpes às afrontas à Constituição Federal.

Pedro Paulo Paulino

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