QUANDO O CÉU ERA DO PROFESSOR FARIAS

 

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Celebra-se, em oito de abril, o Dia Mundial da Astronomia. Observar o céu noturno é um hobby que me acompanha desde a adolescência e, até hoje, ainda sinto um raro prazer em ver as estrelas. Houve mesmo um tempo em que meu interesse pela astronomia despertou-me maior entusiasmo. Em Canindé, entre um grupo de imberbes já deixando o curso secundário, dividíamos horas em comentar assuntos dessa natureza, principalmente influenciados pelo astrônomo e escritor norte-americano Carl Sagan, que na década de 80 virou astro de televisão em grande parte do mundo com seu seriado Cosmos baseado em seu best-seller de mesmo nome. E também motivados pela leitura de Isaac Asimov, Stephen Hawking, George Gamow, John Gribbin e o brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão.

A crônica astronômica de Canindé, todavia, merece ser dividida em duas épocas distintas: antes e depois do Professor Farias. Seu prenome Eliúd, somado à cor triguenha e à uma boa estatura, fazia mesmo evocar nele alguma origem judia que lhe dava um aspecto de cientista maluco, predicados que o deixavam ufano. Barba rala, calva proeminente, tinha um olhar inquieto – e nem a lacuna deixada pelos pré-molares inibia em sua boca um sorriso franco. Contava presumíveis 50 anos. Professor Farias desembarcou em Canindé por volta de 1988 e logo sua presença causou impacto na cidade. Astrônomo, articulado e sobraçando invariavelmente um exemplar da revista Times, por outras qualidades mais ganhou a simpatia de todos. Foi acolhido mesmo pelo poder público, quando dirigia a cidade o então prefeito Ivan Magalhães, que o mandou hospedar no melhor hotel, vendo nele talvez um guru para a geração de jovens estudantes das escolas municipais. Porém, o que mais ainda fazia chamar atenção no Professor Farias era exatamente um telescópio que ele trouxera consigo e que para todos nós foi motivo de muita curiosidade.

Instalado à noite em locais estratégicos da cidade, através de suas lentes vimos a primeira vez aspectos maravilhosos do céu, como os quatro satélites interiores de Júpiter, os anéis de Saturno e as crateras da Lua. Imagens vistas pela primeira vez pelo sábio italiano Galileu Galilei, em mil seiscentos e alguma coisa. (O pioneirismo dessa descoberta, aliás, foi reivindicado por um contemporâneo de Galileu, Simon Marius. Mas não vamos entrar no mérito dessa questão secular por eles mesmos mal-resolvida.)

Não tardou para o Professor Farias conquistar nossa admiração. E dele nos aproximamos como a um verdadeiro mestre. Por ele, fomos orientados a reconhecer as constelações, distinguir as estrelas por seu nome científico e grandeza; e vimos pelo seu telescópio Andrômeda, a galáxia irmã-gêmea da Via-Láctea, que calculam estar a trilhões de quilômetros da Terra.

A astronomia era seu sacerdócio. O céu inteiro era do Professor Farias. Nessa época de glória, ele foi a vedete nas escolas de Canindé, que o intimavam a participar de eventos os mais diversos. Num desses, desfilou em carro aberto como atração cívica na parada do 7 de Setembro, exibindo a todos seu estimado telescópio. Sentia-se elevado quando o chamavam de astrônomo e diminuído se o chamavam de astrólogo. Uma noite, enquanto subia o alto do Monte com seu aparelho, em busca de uma atmosfera mais favorável a suas observações, ouviu alguém murmurar da calçada: “Ali vai o astrólogo Farias com sua luneta”. Foi o bastante para ele agastar-se e desistir de patrulhar os astros naquela ocasião. Centrado nas coisas do céu, ele pisava descuidoso na terra. A permanência em Canindé foi tornando-o bisonho e desgastado. Uma tentativa ridícula e frustrante à vereança local acabou de lhe aniquilar os ânimos. A última vez que ressurgiu por aqui, arrastava um filho radicalmente avesso aos gostos do pai. E com este desapareceu de vez, como um cometa, até os dias de hoje. Professor Eliúd Farias nos deixou como herança a tradição de olhar o céu pelo telescópio. E desde então, toda vez que volto os olhos para o Firmamento, é-me impossível não relembrar seus sonhos e ideais loucos que ainda vagueiam, quem sabe, por entre as mesmas estrelas…

Pedro Paulo Paulino


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